Auxílio ou Empecilho

                                                     Auxílio ou Empecilho?

 

Dentre os muitos favores que nos são concedidos por nosso bondoso Senhor, sem dúvida um dos mais elevados é o privilegio de estarmos presentes na assembléia de seu amado povo. Podemos assegurar com total confiança que todo aquele que verdadeiramente ama a Cristo se alegará por estar onde Ele prometeu estar (Mt 18:20), e isto independente do caráter da reunião -- seja para estar à mesa do Senhor para recordar Sua morte (que desejo maravilhoso), seja para ocupar-se com a Palavra de Deus e conhecer a Sua vontade (precisamos nos dedicar ao estudo com os amados), ou acercar-se do trono da graça para contar a Ele de nossas necessidades e obter provisão de Seu tesouro inesgotável (muitos infelizmente não tem dado o valor correto a reunião de oração). Todo coração devoto desejará estar ali, e podemos descansar na certeza de que qualquer pessoa que deliberadamente negligencie a assembléia encontra-se em uma condição perigosa de morte e frieza de alma. Negligenciar a assembléia de vontade própria é o primeiro passo na ladeira que leva ao total abandono de Cristo e de Seus preciosos interesses, se meditarmos em Hb 10: 25-27, poderemos compreender com clareza que muitos têm agido dessa maneira.


Esta é, obviamente, uma questão de grande importância que todo cristão -- homem, mulher e criança -- tem a responsabilidade e o privilégio de assumir, divinamente guiado, antes de tomar seu lugar em uma assembléia (o autor não se refere a uma denominação quando usa essa palavra). Freqüentar uma reunião sem conhecer o fundamento sobre o qual tal reunião está estabelecida é agir em ignorância ou indiferença, e de uma forma totalmente incompatível com o temor do Senhor e o amor à Sua Palavra.

Todavia, voltamos a dizer que esta não é a questão que agora temos diante de nós. Não estamos ocupados com a reunião em si, mas com nossa condição e conduta nessa reunião -- uma questão que certamente tem uma enorme importância moral para cada irmão (ambos os sexos) que professe estar congregada em ou ao nome daquele que é santo e verdadeiro. Em poucas palavras, nosso assunto está claramente identificado no título deste artigo. Cremos que o leitor esteja esclarecido no que diz respeito aos fundamentos da assembléia e, portanto, nossa imediata ocupação é trazer ao seu coração e consciência a solene questão: "Serei eu um auxílio ou empecilho para a assembléia?" Que cada um, individualmente, é uma coisa ou outra é algo tão claro quanto à responsabilidade prática que decorre disto.

Se o leitor abrir sua Bíblia e ler I Co 12 em atenção e oração, irá descobrir da forma mais clara possível a grande verdade prática da influência que cada membro do corpo exerce sobre todos os demais, do mesmo modo como acontece com o corpo humano. Se existir algo de errado com o mais fraco e obscuro membro, todos os membros sofrem por intermédio da cabeça. Se existir uma unha encravada ou dente quebrado, um pé deslocado ou outro membro, músculo ou nervo fora de lugar, isso servirá de empecilho para todo o corpo. Assim ocorre na igreja de Deus, o corpo de Cristo: "De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele", I Co 12: 26.

A condição de cada membro pode ser tanto de auxílio como de empecilho para todos. Quão profunda é esta verdade! Sim, e ela é tão profunda quanto prática.

Devemos nos lembrar de que o apóstolo Paulo, não está falando de uma assembléia local em particular, mas de todo o corpo, do qual, sem dúvida alguma, cada assembléia em particular deve ser sua expressão local. Assim, ao dirigir-se à assembléia em Corinto, ele diz: "Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular", I Co 12: 27. É certo que existiam outras assembléias, e se o apóstolo tivesse se dirigido a qualquer uma delas para tratar do mesmo assunto ele teria usado da mesma linguagem, pois o que era determinante para cada uma individualmente, era determinante para todas, e o que era verdade acerca do todo era verdade para cada expressão local da igreja (verifique I Co 1: 2). Nada pode ser mais claro, nada mais simples, nada mais profundamente prático. O assunto todo nos dá três motivos dos mais preciosos para uma vida santa, sincera e devota. Primeiro, que não devemos desonrar a Cabeça à qual estamos unidos; segundo, que não devemos entristecer o Espírito Santo pelo qual somos unidos; e terceiro, que não devemos causar dano aos membros aos quais estamos unidos.

Haveria algo capaz de exceder o poder moral de tais motivos? Oh, que eles possam ser plenamente compreendidos pelo amado povo de Deus! Uma coisa é guardar e ensinar a doutrina da unidade do corpo, outra bem diferente é exibir seu santo poder de moldar. Ora, o pobre intelecto humano é capaz de discutir e fazer circular as mais elevadas verdades sem que o coração, a consciência e a vida jamais sequer sintam sua santa influência! Este é um pensamento dos mais solenes para cada um. Possamos ponderar isto em nossos corações, e que estas coisas venham a ter influência em toda a nossa vida e caráter. Que a verdade do "um só corpo" possa ser uma grande realidade moral para cada membro deste corpo sobre a face da terra.

Poderíamos terminar por aqui, sentindo, como de fato sentimos, que se a gloriosa verdade sobre a qual temos discorrido fosse apropriada no vivo poder da fé por todos os que pertencem ao amado povo do Senhor, certamente todas as conseqüências práticas disso se seguiriam. Mas ao decidirmos escrever, tínhamos em mente uma expressão importante deste assunto, a saber, a maneira como as diversas reuniões são afetadas pela condição do irmão, pela atitude do coração e pelo estado de espírito de todos os que ali estão reunidos. Repetimos, e de modo enfático, que estamos falando de todos os que estão reunidos -- todos os que compõem a reunião -- não meramente daqueles que têm uma participação audível nelas. Infelizmente você pode estar presente e não ser participante.

Não há dúvida de que uma grande responsabilidade pese sobre aqueles que têm parte no ministério, seja sugerindo um hino, apresentando uma oração ou ação de graças, lendo a Palavra, ensinando ou exortando. Todos os que fazem isso devem estar bem cientes de que são meros instrumentos nas mãos do Senhor, independente daquilo que são chamados a fazer. Se não se colocarem assim poderão causar sérios danos à reunião. Poderão apagar o Espírito, obstruir a adoração, interromper a comunhão ou desvirtuar a integridade da ocasião.

Tudo isso é extremamente sério e exige uma santa atenção da parte de todos aqueles que estão envolvidos em qualquer aspecto do ministério na assembléia. Até mesmo um hino pode ser um problema se interromper o fluir do Espírito na assembléia (e muitas vezes temos experimentado isso, infelizmente). Sim, até mesmo a leitura preciosa Palavra de Deus pode estar fora de lugar. Em suma, qualquer coisa que não seja um fruto direto do Espírito pode atrapalhar a edificação e bênção da assembléia. Todos os que participam do ministério devem estar bem cientes de serem dirigidos pelo Espírito naquilo que fazem. Devem ser governados por um único imperativo e envolvente fim: a glória de Cristo na assembléia e a bênção dela em Cristo. "Faça-se tudo para edificação" I Co 14: 26. Se assim não for, é melhor que se mantenham em silêncio e aguardem no Senhor. Eles trarão mais glória a Cristo e maior bênção para a assembléia se esperarem em silêncio, do que se estiverem engajados em uma interminável atividade e em discursos inúteis.

Todavia, se por um lado estamos cientes da gravidade disso tudo que deve ser dito em referência à santa responsabilidade de todos os que ministram na assembléia, por outro estamos totalmente persuadidos de que o tom, caráter e efeito geral das reuniões públicas estão muito intimamente associados à condição moral e espiritual de todos. Confessamos ser isto o que nos aflige o coração e nos leva a escrever este breve texto dirigido a cada assembléia em toda a terra. Cada pessoa na reunião serve tanto de auxílio como de empecilho; tanto pode ser alguém que colabora como alguém que atrapalha. Todos os que se reúnem com um espírito sincero, amoroso e devoto -- que vêm simplesmente para se reunir com o próprio Senhor, que se achegam à assembléia por ser o lugar onde o Seu precioso nome está gravado e se alegram por estarem ali por causa do que Ele representa nesse lugar -- todos os que vêm nesse espírito são de real ajuda e bênção para a reunião. Que Deus possa fazer o número destes aumentar. Se todas as assembléias fossem formadas por pessoas tão abençoadas assim, que diferente história teríamos para contar.

E por que não é isto o que ocorre? Não se trata de uma questão de dom ou conhecimento, mas de graça e santidade; de piedade e espírito de oração. Em suma, trata-se simplesmente de uma questão da condição da alma em que cada filho de Deus e servo de Cristo devem estar, e sem a qual os dons mais preciosos e o conhecimento mais profundo acabam sendo um empecilho e uma ilusão. Dom e inteligência apenas, sem uma consciência exercitada e o temor de Deus, podem ser usados -- e geralmente são -- pelo inimigo para a ruína moral das almas. Mas onde existir uma verdadeira humildade e aquela seriedade e genuinidade que é sempre produzida pela convicção da presença de Deus, ali você terá, independente de quem for usado, uma adição de vigor, frescor e espírito de adoração à assembléia.

Existe uma enorme diferença entre uma assembléia de pessoas reunidas em torno de um homem que possui um dom, e outra reunida simplesmente para o próprio Senhor sobre o fundamento do um só corpo. Uma coisa é estarmos reunidos pelo ministério, outra completamente diferente é estarmos reunidos ao ministério. Se as pessoas tiverem sido reunidas pelo ministério, quando o ministério sair elas acabarão saindo também. Mas quando pessoas sinceras, devotas e bem intencionadas são reunidas simplesmente ao próprio Senhor, então, por mais gratas que sejam por um verdadeiro ministério sempre que puderem recebê-lo, não é disso que elas dependem. Elas não deixam de dar valor ao dom, mas o que acontece é que dão maior valor Àquele que concede o dom. Elas são gratas pelas águas, mas são dependentes apenas da Fonte.

A prática invariavelmente demonstra que aqueles que vivem bem sem dependerem do ministério são os que maior valor dão a ele quando têm a oportunidade de recebê-lo. Em suma, pessoas assim colocam o ministério em seu devido lugar. Mas aqueles que dão pouca importância ao dom, que estão o tempo todo se queixando da falta que ele faz e não conseguem desfrutar da reunião sem vê-lo manifestado, são um empecilho e motivo de fraqueza para a assembléia.

Existem outros empecilhos e fontes de fraqueza que exigem a séria atenção de todos. Cada um de nós deveria assumir seu lugar na assembléia e perguntar a si mesmo: "Sou eu um auxílio ou empecilho -- alguém que ajuda ou atrapalha?" Se viermos em uma condição de alma fria, resistente e inconseqüente -- se viermos de modo meramente formal, sem um exercício íntimo, com um espírito de murmuração e reclamação, julgando a todos exceto a nós mesmos -- então o mais certo é que seremos de grande empecilho à bênção, proveito e felicidade da reunião. Seremos a unha encravada ou dente quebrado, ou o pé deslocado. Quão triste, terrível e humilhante é estarmos assim! Que possamos vigiar, orar e resistir a uma tal condição.

Mas, se por outro lado, aqueles que se apresentam na assembléia em um espírito de graça, amor e conformidade com Cristo; que se alegram em encontrar-se com seus irmãos, seja ao redor da mesa do Senhor, da fonte das Sagradas Escrituras ou do trono da graça em oração; que no profundo de seus corações e de suas afeições incluem todos os membros do amado corpo de Cristo; cujos olhos não estão embaçados e nem suas afeições perturbadas por suspeitas malignas, imaginações perniciosas ou sentimentos maldosos para com as pessoas ao seu redor; que têm sido ensinados por Deus a amarem seus irmãos, a enxergá-los do alto, como Deus os enxerga; que estão prontos a desfrutar de qualquer coisa que o gracioso Senhor enviar por intermédio deles, ainda que não sejam eles dons de destaque ou mestres favoritos -- pessoas assim são bênçãos divinamente enviadas para a assembléia, onde quer que esta esteja. Voltamos a desejar, de todo coração, que Deus possa aumentar o número de pessoas assim. Se todas as assembléias fossem compostas por tais pessoas é certo que nos sentiríamos envoltos na própria atmosfera do céu; que o nome de Jesus seria como ungüento derramado; que cada olho estaria fixado nEle, cada coração absorto nEle, e haveria assim um testemunho mais poderoso para o Seu nome e da Sua presença em nosso meio, do que tudo aquilo que pudesse ser produzido pelo mais brilhante dom.

Que o bondoso Senhor possa derramar Sua bênção sobre todas as Suas assembléias em toda a terra. Que Ele possa livrá-las de todo empecilho, de todo peso e de todo tropeço e raiz de amargura. Que os corações de todos possam estar unidos em doce confiança e fraternal amor. Que Ele possa coroar com Sua mais rica bênção o trabalho de todos os Seus amados servos em sua localidade e além, alegrando seus corações e fortalecendo suas mãos, além de conceder que sejam constantes e inabaláveis, sempre abundando em Sua preciosa obra, na certeza de que, no Senhor, o seu trabalho não é vão.

 “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor" I Co 15: 58. 

Agora resta apenas saber, se você é Auxílio ou Empecilho?


                                                                                                                                      C. H. Mackintosh